EM PIRACICABA (SP) 12 DE SETEMBRO DE 2019

Palestras desmistificam e incentivam diálogo sobre suicídio

Conforme iniciativa do vereador Lair Braga, palestras foram ministradas nesta quinta-feira, no salão nobre da Câmara.




Toque na imagem para aumentar

Palestras foram ministradas nesta quinta-feira, no salão nobre, conforme iniciativa do vereador Lair Braga

Crédito: Fabrice Desmonts - MTB 22.946

As palestras "Comportamento suicida na terceira idade", com Gisleine Freitas, "Suicídio na infância e adolescência", com as psicólogas Cristiane Aparecida Florentino Alves Lima e Isolina Heringer Vieira, e "Assédio no trabalho ocasionando a depressão: quais são seus direitos?", com a advogada Eliana Grigolatto, foram ministradas nesta quinta-feira (12), no salão nobre da Câmara, conforme iniciativa do vereador Lair Braga (SD), por ocasião da campanha "Setembro Amarelo", de prevenção ao suicídio.

O parlamentar comentou que é necessário começar a tratar do suicídio, principalmente na esfera política do município, e a buscar soluções para o problema. "Trabalho na imprensa há mais de 40 anos e sempre fui orientado a não divulgar mortes por suicídio porque alguns especialistas acreditavam que a divulgação acabaria incentivando as pessoas que estivessem propensas a também cometer o ato. Porém, chegamos a um patamar em que é necessário, sim, propormos ações. É o meu dever como legislador", afirmou.

Para Gisleine Freitas, doutora em psicologia pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) e professora do curso de psicologia da Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba), refletir sobre suicídio é pensar na vida e em como lidar com o sofrimento humano.

Ela falou sobre comportamento suicida no processo de envelhecimento, que, segundo ela, é cada vez mais frequente. A psicóloga classificou os idosos em dois grupos populacionais: os que se mantêm independentes e têm vida social ativa e os fragilizados, que, aos poucos, perdem a capacidade funcional, o que acarreta na perda das faculdades físicas e mentais, que são a base da vida cotidiana.

"O envelhecimento é um processo que deveria ser vivenciado com autonomia, reconhecimento de direitos, segurança, dignidade, bem-estar e saúde", avaliou. Gisleine acrescentou que, em vez disso, os idosos perdem, cada vez mais, seu papel na sociedade. Além disso, a maioria precisa lidar com a morte de parentes e amigos próximos, saúde em declínio, doenças crônicas como Parkinson, redução do funcionamento cognitivo, drogas medicamentosas e restrições financeiras.

"Todos esses são fatores de risco para perda da capacidade funcional. Muitas vezes, a depressão é uma precursora da demência na vida dos idosos", explicou. Ela destacou que a violência visível e a invisível são "gatilhos" para o suicídio. "O preconceito e a discriminação contra o idoso o desvalorizam e o transformam em um ser descartável, 'café com leite', inútil e sem função social, o que potencializa as outras violências e estimula a depressão, o isolamento e o desejo da morte."

De acordo com a psicóloga, acidentes de trânsito causados por transporte inadequado, quedas, queimaduras e intoxicações ––consequências de residências e vias não seguras–– são fatores externos que contribuem para agravar o estado de vulnerabilidade das pessoas que compõem o grupo da terceira idade.

Embora alguns comportamentos sejam mais fáceis de serem percebidos, Gisleine não acredita que haja um único perfil suicida, válido para todas as pessoas. "Impulsividade, agressividade, histórico de tentativas e transtorno mental são alguns dos comportamentos observados entre os suicidas, mas nem sempre são aparentes. Por isso, tratar da depressão não diminui as taxas de suicídio", alertou.

Segundo ela, grande parte dos idosos que tiraram a própria vida foi diagnosticada com doenças físicas consideradas incapacitantes e passou por tratamentos médicos potencializadores de sofrimento. "A maioria dessas pessoas não tiveram assistência multiprofissional, que é essencial, principalmente em doenças que causam limites funcionais ao idoso."

Para a psicóloga, fazer a avaliação da ansiedade, verificar a qualidade do apoio social e perceber sentimentos de desvalorização e impotência (pânico e depressão) são atitudes fundamentais na prevenção do suicídio. "As pessoas precisam de mais momentos de comunicação. Falar diretamente com os pacientes e suas famílias sobre o risco do suicídio reduz o acesso ao método", elucidou.

"Nem todas as pessoas emitem sinais. É sofrido para vermos e reconhecermos sinais implícitos. Primeiro a pessoa idealiza o suicídio, depois elabora um plano e, por fim, coloca em prática", advertiu.

A psicóloga listou uma série de comportamentos que devem ser praticados por todas as pessoas que provocam, de fato, a diminuição dos casos de suicídio. "Não subestime o sofrimento alheio, não instigue, cuidado com as falas inadequadas. Ninguém é responsável pela vida do outro, mas podemos levar ajuda e prevenir o isolamento social, a depressão e os problemas com álcool e drogas."

Ela incentivou as pessoas a procurarem ajuda nos vínculos afetivos e por meio de profissionais como psicólogos, psiquiatras e terapeutas. "Para não adoecer precisamos falar. No lugar de emoções reprimidas, depressão, amargura e isolamento social, precisamos encorajar as pessoas a expressarem as emoções, praticarem a aceitação e apoiá-los, acima de tudo. Salvar um suicida é salvar a humanidade", afirmou.

INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA - Psicólogas do Caps (Centros de Atenção Psicossocial) Infanto-Juvenil, Cristiane Aparecida Florentino Alves Lima e Isolina Heringer Vieira falaram sobre suicídio na infância e adolescência e do papel da sociedade na prevenção dele e na valorização da vida. "Precisamos pensar nos fatores desencadeantes e cuidar do nosso bem mais precioso, que é a nossa vida", afirmou Cristiane.

De acordo com ela, o fenômeno da "patologização" da infância é um dos maiores problemas que a equipe do Caps enfrenta. "Recebemos crianças já diagnosticadas por funcionários de escolas, pela própria família. Às vezes, é apenas uma dificuldade de manejo: todo ser humano enquanto sujeito em desenvolvimento passa por processos de transformação, o que é completamente normal", explicou.

Para a psicóloga, a ascensão das tecnologias alterou as formas como o ser humano atua e os padrões vigentes na sociedade influenciam no modo como cada pessoa tem se desenvolvido. "Entre crianças e adolescentes não é diferente. Devemos tomar o cuidado de observar como a criança está se desenvolvendo, como é a dinâmica na família e em qual contexto ela está inserida."

Cristiane trouxe à discussão os padrões sociais que a sociedade tem privilegiado, a falta de responsabilidade emocional e a qualidade do tempo dedicado aos filhos. "Cada vez mais estamos envolvidos com as demandas da sociedade, com o trabalho, metas e compromissos, mas e as nossas crianças? Que tipo de atenção temos dispensado a elas? O que estamos contribuindo para produzir nas nossas crianças e adolescentes?", questionou.

Ela acrescentou que a qualidade do afeto das relações é determinante para a forma como a criança vai interagir na sociedade. "Não adianta estabelecermos regras se não tivermos condições de ser contingentes. Crianças não reagem da mesma forma, às vezes queremos impor modelos sem propiciar um desenvolvimento saudável", comentou.

A psicóloga ressaltou a importância das brincadeiras infantis, fundamentais para o desenvolvimento emocional e afetivo e que promovem a percepção motora, o equilíbrio e a orientação espacial, além do desenvolvimento das linguagens, das habilidades motoras e de valores como a cooperação, o respeito e os limites.

"É importante pensar na adolescência como uma fase onde o ser humano passa por transformações, não só biológicas, mas psíquicas. Muitas vezes, o adolescente é entendido como uma pessoa que apresenta demanda de saúde mental, quando ele está apenas expressando sua forma de lidar com as mudanças", explicou.

Segundo Cristiane, a falta de relações interpessoais, a dificuldade de olhar no olho e de interagir, a referência familiar, a baixa tolerância e a frustração, a sensação de desamparo e de desesperança, a cobrança dos pais, as questões econômicas e o bullying são fatores de risco preponderantes que podem culminar no suicídio.

"A efemeridade das relações faz com que, cada vez mais, as pessoas se sintam sozinhas: 'Tenho mil amigos no Facebook, mas na hora que me sinto sozinho e preciso de alguém não encontro. O que vão pensar de mim se eu disser que estou sozinho e triste?'. Hoje em dia, as pessoas precisam manter um padrão doentio", afirmou.

"Quando a pessoa fala para alguém que está pensando em suicídio, quer dizer que ela conseguiu perceber que está precisando de cuidados e de atenção. Significa que ela ainda nutre esperança", acrescentou. Cristiane disse que para combater o suicídio é necessário ser empático, não julgar e não apresentar formulas mágicas.

"Devemos nos apresentar como uma pessoa disponível. Precisamos exercer a qualidade da escuta. Os principais fatores de proteção são espaços de cuidado como o Caps, de pertencimento, de escuta e acolhimento, além dos vínculos afetivos", aconselhou.

ASSÉDIO NO TRABALHO OCASIONANDO A DEPRESSÃO - "Local de trabalho não é um barzinho aonde vou com os meus amigos, tampouco a minha casa. É um local para o qual fui contratado para prestar serviço, respeitando e sendo respeitado", explicou a advogada Eliana Grigolatto.

É considerado assédio moral, segundo Eliana, quando o funcionário se sente humilhado e machucado com palavras ou atitudes. "Existem o assédio do superior para o inferior e o linear, entre funcionários. O que fazer diante dessas situações? Reclamar ou perder o serviço? A quem eu recorro?", perguntou.

De acordo com a advogada, esse é o momento em que a maioria se cala. "'Não posso reclamar, vou continuar sofrendo humilhações'. O assédio é uma depressão silenciosa, como se fosse um veneno conta-gotas. O assediador todo dia lhe dá uma gota, ele não espera que você morra, só que sinta a humilhação dia após dia", alertou.

Ela explicou que o assédio moral no ambiente de trabalho é a exposição dos funcionários a situações humilhantes e constrangedoras, repetitivas e prolongadas durante a jornada de trabalho e no exercício de suas funções, sendo mais comuns em relações hierárquicas autoritárias e sem simetrias, em que predominam condutas negativas, relações desumanas e aéticas de longa duração, de um ou mais chefes, dirigidas a um ou mais subordinados, desestabilizando a relação da vítima com o ambiente de trabalho e a organização, forçando-o a desistir do emprego.

"As pessoas precisam observar e denunciar para o Ministério do Trabalho ou a advogado de confiança. Só denunciando é que as coisas vão começar a melhorar. As pessoas estão perdendo a vida por conta de assédio moral dentro de empresa. É preciso pensarmos que não adianta ter tido uma infância e adolescência maravilhosas se minha vida adulta será destruída por causa do meu emprego", observou.

Saúde Lair Braga

Texto:  Raquel Soares
Supervisão de Texto e Fotografia: Valéria Rodrigues - MTB 23.343
Revisão:  Ricardo Vasques - MTB 49.918

Notícias relacionadas