EM PIRACICABA (SP) 16 DE SETEMBRO DE 2022

Em 1924, Câmara criou comissão para combate à Praga do Café

Documentos da Comissão de Defesa Agrícola foram identificados e transcritos pelo Setor de Gestão de Documentação e Arquivo; público pode acessar no sistema Atom




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Besouro conhecido como broca-do-café preocupou fazendeiros entre 1924 e 1927 / Créditos: Museu da Imigração




Em meados da década de 1920, as plantações paulistas de café sofreram com a praga dos Stephanoderes coffeae, besouros conhecidos como broca-do-café, cujas larvas se alimentam das sementes do cafeeiro. Neste momento, os cafezais abrigavam o maior produto da economia estadual, o que tornou a infestação motivo de preocupação para os produtores, assim como para os políticos. 

Relata-se que o jornal O Estado de S. Paulo noticiou a praga no dia 30 de maio de 1924, através de matéria sobre a notificação de um fazendeiro de Campinas ao secretário de Agricultura, Gabriel Ribeiro dos Santos. A partir de então, foram convocados entomologistas para darem início aos estudos sobre o inseto. A gravidade da situação fez com que rápidas medidas fossem tomadas, como a nomeação de uma comissão científica para combater a praga, sob comando do pesquisador Arthur Neiva e participação de membros como o agrônomo Edmundo Navarro de Andrade.

Em Piracicaba, a Câmara Municipal resolveu criar sua própria comissão, a fim de colaborar com o controle da infestação realizado pelo estado e evitar as perdas econômicas. O Setor de Gestão de Documentação e Arquivo, chefiado pela arquivista Giovanna Fenili Calabria, identificou e transcreveu a série “Praga do Café”, lançada nesta sexta-feira (16) na plataforma Atom, que reúne o arquivo histórico da Casa de Leis. A série é composta por duas subséries, incluindo as atas da tal comissão e os ofícios enviados ou recebidos por ela.

A primeira ata da subsérie data de 15 de junho de 1924 e trata de reunião realizada no Clube Piracicabano. Nela, o engenheiro agrônomo José Vizioli defendeu a junção dos esforços governamentais com as ações particulares para o combate à praga, que envolveriam a constatação da existência ou não da praga nos cafezais do município, a obtenção de todos os dados a esse respeito, divulgação das medidas de defesa ordenadas pela Comissão Oficial do estado, dentre outros passos.

O deputado Samuel de Castro Neves, por sua vez, representando o ausente Coronel Fernando Febeliano da Costa, foi quem propôs a criação da comissão composta pelos piracicabanos. Na mesma ocasião, a proposta foi aprovada e a comissão ganhou seus membros, dentre vereadores, agrônomos, fazendeiros e demais personalidades influentes: Coriolano Ferraz do Amaral, Rosario Averna Saccá, José de Mello Moraes, José Vizioli, Ignacio Florencio da Silveira, Alcebíades Bertolotti, Philippe Westin Cabral de Vasconcellos, Antônio Bacchi, José Rodrigues da Costa Sobrinho e João Mendes Pereira de Almeida.

Na mesma reunião, o secretário de Agricultura defendeu que “a proficiência, a capacidade de trabalho, a energia, a constância, o patriotismo e o devotamento a Piracicaba” eram virtudes de todos que compunham a comissão. Já o vereador Philippe Westin C. de Vasconcellos pediu a todos os lavradores que notificassem a referida comissão caso encontrassem a praga em suas plantações, ainda que precisassem sacrificar os cafezais “em benefício do próximo e a bem da coletividade”.

Na segunda reunião, realizada no mesmo dia, os membros elegeram o presidente e o secretário da intitulada Comissão Municipal de Defesa Agrícola, sendo respectivamente Coriolano Ferraz do Amaral e José de Mello Moraes.

Já no dia seguinte, 16 de junho de 1924, os homens decidiram por alguns encaminhamentos: enviar ofício ao presidente da Câmara comunicando que a comissão já estava ativa, solicitar um mapa do município à Casa de Leis, instruir alunos da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq/USP) para que eles prestassem serviço na inspeção de fazendas, dividir a comissão em subcomissões para fiscalização das propriedades cafeeiras, verificar onde estiveram depositados os cafés provenientes de Campinas e Limeira, experimentar a desinfecção da saca vinda de Santos antes de distribuí-la aos agricultores, expor material na Câmara e na Universidade Popular de Piracicaba para fins de conhecimento do inseto.

Nas atas seguintes, os membros da comissão relatam visitas a fazendas, sugerem o convite de Raul Duarte, professor de entomologia, a participar da comissão, e destacam a visita do engenheiro agrônomo Edmundo Navarro de Andrade à cidade.

Além disso, na ata de 19 de junho, a quinta e última da subsérie, consta que Averna ­Saccá e Alcebíades Bertolotti afirmavam ter encontrado o Stephanoderes na fazenda Taquaral e na fazenda Nova Liberia. Bertolotti, na ocasião, apresentou uma amostra do café apreendido nas plantações contaminadas:

"O senhor doutor Bertolotti apresenta uma amostra do café existente na Estação de Tupy e do Taquaral, café vindo de Campinas e redespachado para Santos. O café estava todo, inteiramente carunchado e foi examinado com curiosidade por todos os presentes” (em transcrição livre)

Na mesma reunião, os membros da comissão sugerem envio de ofício ao prefeito Febeliano da Costa, solicitando que ele se entendesse com a diretoria da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, para obter a destruição de centenas de plantações cafeeiras abandonadas em terrenos de sua propriedade, ao redor da estação Taquaral. Eles sugerem, ainda, solicitar ao prefeito que fiscais municipais impeçam a entrada de sacas de outros municípios, a menos que recebessem “rigorosa inspeção”.

Por fim, os membros aprovaram a solicitação à Câmara de uma sessão extraordinária para a aprovação de leis que fiscalizassem e reprimissem “o mal” que atacava os cafeeiros, bem como para solicitar o adiamento do início das aulas da Esalq, permitindo que os alunos permanecessem auxiliando os trabalhos.

Nos ofícios presentes na segunda subsérie, é possível verificar a comunicação estabelecida pela comissão com a Esalq, solicitando informações sobre os estudos acerca da fermentação do café, pedindo a presença dos alunos no treinamento, entre outros. 

Ao longo de 1924, a praga continuou tomando conta das plantações paulistas – em outubro, já eram contabilizados 36 municípios afetados por ela. Já em dezembro do mesmo ano foi criada a Comissão de Estudo e Debelação da Praga Cafeeira através da lei 2020/1924. Ao final de três anos, em 1927, a praga foi finalmente controlada.

A digitalização e a transcrição das atas citadas podem ser conferidas nos anexos abaixo.

ATOM – O Acess to memory (Atom) é um sistema de descrição arquivística de código aberto criado pelo Conselho Internacional de Arquivos, através do qual o Setor de Gestão de Documentação e Arquivo da Câmara disponibiliza itens do acervo histórico da Casa de Leis. Atualmente, 1.132 itens estão disponíveis ao fácil acesso do público.

ACHADOS DO ARQUIVO - A série "Achados do Arquivo" se pauta na publicação de parte do acervo do Setor de Gestão de Documentação e Arquivo, ligado ao Departamento Administrativo, criada pelo setor de Documentação, em parceria com o Departamento de Comunicação Social, com publicações no site da Câmara, às sextas-feiras, como forma de tornar acessível ao público as informações do acervo da Casa de Leis.

Achados no Arquivo

Texto:  Laura Fedrizzi Salere
Supervisão:  Rodrigo Alves - MTB 42.583


Anexos:
praga do café - transcrição.pdf


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